terça-feira, 25 de junho de 2013

Diálogo (ir)real

O que acontece num comboio entre Valadares e Coimbrões às 6 e 50 da manhã ou como 'nirvanizar' a vida de um apreciador de comédia

Intervenientes: três irmãs (duas presentes e outra transcendente) e uma, como dizer, senhora (para facilitar)

Entra a irmã 1 em Valadares que se senta ao lado da senhora, a qual estabelece imediatamente diálogo.
- Olá!
- Hum, o-olá.
- Já não a via há muito tempo. Quem também não vejo há muito tempo é a sua irmã.
- A minha irmã morreu.
- Oh que desgraça!
- Sim, faz cinco anos.
- Pois, realmente já não a via há muito. De que é que foi?
- Foi canceroso.
- Oh pá, que chatice! E canceroso de quê?
- Dos intestinos.
-Pois, a vida é assim. Ai, a vida! A vida a vida a vida a vida!
- ...
- Sabe, nós éramos muito amigas. Como é que ela se chamava?
- Rosa.
- Exacto, Rosa! Rosa, Rosinha, Rosita. Rosa, é isso. Rosa.
Na paragem da Madalena entra a Irmã 2, mas o diálogo continua entra a senhora e a Irmã 1.
- Agora que penso, acho que já sabia que ela tinha falecido. É que eu às vezes leio o jornal todos os dias e acho que li lá isso.
- Ó irmã 2, a Rosa saiu no jornal?
- Não.
- Pois, se calhar não. Deve ter sido uma parecida.
- ...
- Mas era muito engraçada a... a.. a sua irmã. Tinha uma maneira engraçada de falar. E ela tinha uma criança  pequenita, não era?
- Já tem 23 anos.
- Pois, pois. Era pequeno na altura.
- É uma menina.
- Pois era. Danada para a brincadeira a...
- Rosa.
Paragem de Coimbrões. Saem as duas irmãs. Fica a senhora. Despedem-se.
- Então, bom trabalho. Dê cumprimentos à sua irmã.

Nota final: O Javali declara que, sob compromisso de honra, fora a frase final, todo o restante diálogo ocorreu perante os olhinhos que a terra há-de comer. Genial!

sexta-feira, 21 de junho de 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Pragmatismo partidário

Notícia de última hora:
Ganhou o 'sim', com uma maioria de 78%, a favor da diferenciação partidária entre destros e canhotos.

O referendo torna este 28 de Junho de 2033 num dia histórico: o dia que pode ficar conhecido pela abolição partidária.
Culmina assim o que começou em 2029, logo após a alienação e consequente desaparição do Partido Comunista, pelo movimento civil "Não (h)áà direita e esquerda, apenas destros e canhotos".
Para nos ajudar a compreender melhor o significado deste desenlace, temos connosco em estúdio o nosso comentador político residente:
- Podemos dizer que tudo começou com um imbróglio capitalista sobre os comunistas, não é assim, Nuno?
- De facto!
- Queres-nos explicar melhor como foi isso?
- Bem, tudo começa no Iémen, quando Aashir ibn Mohammed se torna magnata na sucessão ao pai, Mohammed ibn Mohammed, ao assumir a liderança da empresa produtora de qat Alá é Grande Mas o Qat Não lhe Fica Atrás (نذ ال له فمن عظيم لكنا ل القات ليس هو م). Eram bem conhecidos os hobbies deste excêntrico: coleccionar comunistas e brandir varas de porcos em aldeias com escassez de víveres. Recordo uma viagem a Pequim, em que tentou colocar na bagagem de porão membros do Comité Central do Partido Comunista Chinês. Foi preciso a intervenção do pai para o safar de uma longa estadia nas cadeias chinesas.
- Sim, isso é do conhecimento público. Queres contar como aconteceu a desmantelação do Partido Comunista Português?
- Bom, ele faz uma primeira abordagem logo no ano em que assume a direcção da empresa. Isto foi em 2025. Apareceu em Lisboa a dizer que queria comprar o PC, oferta que foi rechaçada de imediato. Viu que tinha que fazer uma abordagem diferente. Regressou a casa e três anos depois teve a grande ideia. Lembrou-se de comprar a herdade da Amora onde decorre a Festa do Avante, o que aconteceu de imediato, deixando o partido tão desorientado como nos anos em que Estaline começou a falar mal de Trotski. Aashir teve então um golpe de mestre. Disse que a festa decorreria normalmente, mas com três nuances: da Amora passaria para Sana; o transporte e as entradas seriam grátis; haveria fornecimento de qat sem restrições (e de forma grátis, também). Depois de alguma desconfiança inicial, o partido lá assentiu, até porque antes de os membros serem do partido comunista, são portugueses, e todos sabemos o que os portugueses pensam acerca da gratuitidade do que quer que seja. O facto de haver narcóticos sem restrições, também ajudou.
- Foi aí que se deu o rapto.
- Eu não falaria em rapto. Foi mais um 'takeover' alternativo. O PC voou para Sana de livre vontade. E como sabemos, como não acreditam na CMVM, qualquer 'takeover' sobre o Partido seria sempre diferente. Podemos dizer que foi uma aquisição forçada, não declarada, com efeito, mas executada dentro dos trâmites legais, de acordo com as tábuas do deserto do Iémen.
- E foi aí...
- Aliás, desculpa interromper, mas houve uma operação que podemos classificar como legal aos olhos do Ocidente. Estou a falar da alienação dos Verdes. Como sabemos, os Verdes voaram com o PC para participar na Festa do Avante. Quando Aashir se quedou com o PC, não sabia o que fazer com os Verdes. Estava já a desesperar e para isso muito contribuiu os gritos da líder do partido. Foi aí que apareceu a Cornfaking & Sons, empresa de comida sediada no Texas. Depressa se interessou pelos Verdes e a operação decorreu num ápice. É claro que isso significou o fim dos Verdes. Veio-se a saber mais tarde que Jim McGrady, o CEO da Cornfaking, utilizou os Verdes para sulfatar latifúndios de milho transgénico, sob o argumento de utilização de produtos ecológicos.
- O fim dos Verdes e do Partido Comunista, correcto?
- Não creio. Acredito que o Partido Comunista, de certa forma, regressa às suas raízes.
- Como assim?
- Os seus membros não foram eliminados. Aashir utiliza-os como pastores das varas de porcos que possui. Será um pouco como um regresso à clandestinidade, debaixo de um sistema opressivo. Portanto, ideologicamente existem enquanto existirem fisicamente. Pelo que soube, mesmo na linguagem mantêm-se activos e utilizam frequentemente a expressão "porco fascista".
- Ficaremos atentos. Falemos agora do significado do referendo. Como fica a política portuguesa?
- Creio que o dia de hoje pode ficar conhecido pelo dia em que a política se descomplicou. Até aqui tivemos uma alternância bipolarizada mas nunca bipolar. Aliás, de bipolar só mesmo a diferença entre o dizer e o fazer. Com o PC fora da cena política, o que já havia acontecido ao Bloco após as jornadas convocadas pelos dissidentes "Futuro da Esquerda: Tu já não és de Esquerda como Antigamente" que terminou como se sabe, os eleitores passaram a ter dificuldade em distinguir quem nos governava. Já não falo ideologicamente, pois penso que nunca o conseguiram, mas refiro-me sobretudo ao facto de a mesma marca de fatos vestir os dois principais partidos.  
- Como ficará então a Assembleia?
- Acima de tudo, optimizada. Optimizada em espaço, pois os deputados passam a sentar-se na mesma orientação consoante a inclinação caligráfica, podendo subalugar o restante espaço para todo o tipo de eventos. E optimizada em termos energéticos, decorrente da condição anterior. O facto de estarem sentados na mesma orientação, permite encaixar os deputados naquilo a que comummente se designa de 'conchinha', fazendo com que a temperatura corporal aumente e diminua, por conseguinte, a utilização do aquecimento.
- Estamos a esquecer-nos de um partido, não é?
- Pois...
- Desculpa a interrupção, Nuno. Acaba de chegar à redacção uma notícia que pode manchar este dia. No largo Adelino Amaro da Costa confirmou-se o pior: toda a direcção do CDS, juntamente com os seus militantes, foram encontrados mortos no interior da sede do partido. Não se pode dizer que seja um desfecho surpreendente, pois a continuidade do partido muito dependia da vitória do 'não'. Perante um resultado adverso, sabia-se que a condição estatutária de ambidestria não seria tolerada num novo panorama político. À entrada para a reunião ainda se pensava que pudesse haver uma espécie de refundação, pelo menos pelas palavras de um dos seus dirigentes que dizia, e passo a citar, "O Freitas é que foi esperto!". É uma notícia que vamos continuar a acompanhar.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Fronteira é a primeira pessoa do singular

Da categoria: Livros do caralho (para ser dito em voz alta e com sotaque de São Paulo)


Javier Cercas é daqueles escritores que não regressa, até porque nunca foi a lado nenhum. Vive na mesma rua de sempre, lado a lado com Flaubert, Bolaño e Vila-Matas, isto só nos números ímpares.
Neste Las leyes de la frontera (2012; Literatura Mondadori) mistura-se ficção com farsa. Logo, procura-se a realidade. Naquilo que aparenta serem as entrevistas de um escritor para recolher material para um novo livro, isso é o livro.
A acção decorre em 1978, num bairro periférico de Gerona, povoado por pessoas periféricas, quando a imberbe democracia sonhava ainda humidamente com Franco.
Gafitas, o narrador maioritário, menino de classe média e 'bullyngofóbico', vê no grupo de Zarco, formado por delinquentes profissionais, a oportunidade de se imiscuir. A oportunidade surge num felácio executado pela delinquente Tere, no WC do salão de jogos Vilaró. A vontade de se integrar veio de imediato: todo ele queria integrar-se ou, pelo menos, parte.
Naquilo que poderia ser um livro de aventuras, de romantismo delinquente, de tonteria adolescente, rapidamente se transforma no inverso. As personagens tornam-se reais por nos apresentarem a sua realidade, permitindo ao leitor apanhá-las nas suas mentiras. E faz-nos pensar na famosa frase de Dr. House: "Everybody lies". E quem mente são as personagens através das verdades de Javier Cercas. Neste caso, se calhar não mentem. Olham para a realidade com a miopia do entendimento individual.
E mais não digo, por duas razões: os livros bons não merecem resumos senão o texto integral; o Javier Cercas merece críticos que não vivam em savanas.
Um livro que devia ser acompanhado com aqueles óculos para ver o Avatar, mas com mais graduação, até porque estas personagens são mesmo tridimensionais.


~
Acerca de Las leyes de la frontera, veja-se:
http://www.eldiario.es/catalunya/diaricultura/cultura-literatura_6_117998214.html

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Granta

A propósito desse acontecimento que é o lançamento da revista Granta na língua de Camões, apraz fazer a primeira crítica, que incide sobre a última entrada da lavra de valter hugo mãe.


Agora, vou ler a revista.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Conspiração Anacrónica

Ideia para livro best-seller:
- Falar de Jesus: não do estabelecido mas, basicamente, inventar
- Misturar história e esoterismo
- Falar de Salazar
- Mencionar em epígrafe que todos os factos históricos mencionados no livro são verdadeiros. Nota mental: não há factos no livro, apenas suposições (eheheh!)

Sinopse:
  • Prefácio: 
Onde se adverte que o que se vai tratar é do desconhecido, porém, altamente verosímil.
Dizer que nos propomos tratar da vida de Jesus entre os 13 e os 33 anos, aludindo espirituosamente (até com algum humor) a que teríamos o fim da discórdia e um modelo a seguir, se soubessemos da vida de Jesus como adolescente. E como sabemos os problemas que a adolescência comporta, teríamos também o fim das aparições televisivas de Eduardo Sá.
Por outro lado, provamos desde logo a divindade de Jesus, para não criar muitos atritos, mencionando uma profecia que se cumpriu: o que acontece após a crucificação de Jesus? Volta para casa do pai. E o que é acontece no séc. XXI? É só trintões a viver em casa dos pais. Profecia cumprida.
  • Desenvolvimento :
No início do livro, Jesus tem 14 anos e aprende a profissão do pai adoptivo. Na carpintaria, nem Jesus nem José passam dias tranquilos. Desde que Jesus nasceu, José passou a ser alvo de chacota pelos seus colegas:
- Ó Zé, ontem nasceu-me o segundo filho. Não veio de nenhum anjo, veio só de cegonha desde Telaviv!
- Ó Zé, com este vento, achas que devo fechar as janelas todas? Com estas brisas, ainda se me engravida a mulher!
- Ó Zé, estou aqui a imaginar coisas bem boas com a minha namorada. Será que quando chegar junto dela já estará enjoada?
Já Jesus, como qualquer aprendiz de carpintaria, era tratado pela alcunha apropriada à sua condição:
- Ó Carpintelho, passa-me aí a grosa.
- Ó Carpintelho, mandas cada farpa!
- Ó Carpintelho, enquanto messias não devias prever a merda que estás a fazer com essa cadeira?
No Outono de 14 depois Dele (não será durante Ele?), houve uma praga de louva-a-Deus (ou seria milagre?) que comeu as nogueiras todas de Nazaré. A escassez de matéria-prima produziu uma escassez de emprego na carpintaria.
Custava muito a José ver os dias a passar pelo filho sem que ele movesse uma palha. Nem na escola ingressou:
- Ó paizinho, eu prometo que hei-de ir para a escola, mas tenho tempo para isso. A eternidade não são dois dias.
Na realidade, Jesus sabia o que gostaria de ser:
- Quero ser ilusionista! Vou chamar-me: Jesus do Mato.
E passava os dias sem mexer uma palha aos olhos do pai, porém a formar-se nesta que via ser a sua vocação. Quantas vezes José não chegou a casa e viu o bidé transformado numa terrina de porcelana, a ovelha num cachecol de seda ou o pão em gomas em forma de javali. Se irritava o pai, o contrário acontecia com a mãe, que o incentivava:
- Ó querido, que bom! Fico muito feliz que queiras ser... como é que é? Ilusionista? Isso mesmo: ilusionista. Olha lá, não te importas de transformar aqui o teu tio Gabriel em naperon, só durante duas horas, que o teu pai está a chegar?
Tudo corria mais ou menos num clima de paz armada até ao dia em que José pegou na caixa de ferramentas. Lembrou-se que tinha que reparar o telhado de um burro que, entretanto, se havia transformado num albergue para pombas, quando viu que as ferramentas mais não eram do que um buquê de dálias. Perdeu a cabeça. Não bastava já a sua masculinidade ser diariamente posta em causa pelos colegas de trabalho, quanto mais ter as ferramentas de 'homem' transmutadas num artigo feminino.
Bastava de ilusionismo. José lembrou-se do stock parado daquelas cadeiras com caruncho, dos tempos da praga de louva-a-Deus, e propôs que Jesus se tornasse vendedor ambulante daquele material danificado. Com uma condição:
- Tens que vender longe da Galileia, não vá alguém conhecer-nos.
Jesus abalou. Afastou-se da Galileia. Mas afastou-se não só espacial como também temporalmente. A ubiquidade permite aos seres divinos mandar espaço e tempo à bardamerda. E ao deus Chronos também, esse pagão herege.
Desse modo, encontramos Jesus no Estoril, em 1968, a bater à porta do Forte de Santo António:
- Quem é?
- Minha cara senhora, sou Jesus e desejaria falar-lhe de algo muito importante.
- Jesus?
- Sim, abra por favor.
-  Faz favor!
- Permite-me que lhe pergunte como se chama a amável senhora?
- Maria. Maria de Jesus.
- Oh, que amabilidade! Não precisa de se entregar logo dessa maneira.
- Diga?!
- Deixe estar. Vim para lhe falar de algo, que sei de fonte segura que lhe faz falta.
- A salvação?
- Mais ou menos. Mas pode ser! A salvação para dias cansativos. O repouso que salva. Que diz?
- Sim, salve-me.
- Pois bem. Aqui tem esta magnífica cadeira de nogueira. Proveniente da terra santa.
- Mas a salvação faz-se... pela cadeira?
- Exacto. Vai ver que, depois de um daqueles dias de trabalho de ufa-ufa, vai sentar-se e pensar: Ai, meu Deus! Era mesmo disto que estava a precisar.
- Hum, pode ser. Vou levar para o Toninho, que ele tem um trabalho muito cansativo.
Mais um negócio bem sucedido. Jesus ainda ouviu Maria de Jesus a gritar já dentro de casa:
- Toninho! Toninho! Onde andas? Ah, estás aqui! Outra vez? António de Oliveira Salazar, quantas vezes te disse que não adianta mostrares o crucifixo aos comunas! Pára lá com isso e anda ver a cadeirinha que te comprei. Pára! Primeiro vês a cadeira, depois dou-te maminha.
  • Conclusão:
Quando esteve no desemprego, Jesus utilizava como varinha de ilusionista um salazar da cozinha da mãe. Na altura, chamava-se herodes mas toda a gente dizia que tinha cara de Salazar.
Por que razão se incompatibilizam NOVO Testamento e Estado NOVO?
A rejeição de Salazar começou na interdição do manuseio do salazar?
Haveria ciúme por Maria de Jesus não ser efectivamente 'de Jesus', e ver Jesus a morte de Salazar como uma libertação do amor?

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Retalho de autobiografia

Porque o Javali não se coibe de partilhar momentos mais íntimos da sua vida.
Deixo-vos uma recordação do fim-de-semana passado, que foi vivido no pinhal de Leiria (o ideal seria em savana mas este país há-de ser sempre atrasado, que nem savanas possui).