quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Patentear o passado

Perante esta ligação, o Javali teve ideias:
  • Obter direitos de autor pela invenção da roda:
Eu não tenho culpa que o acaso me tenha feito existir apenas no séc. XX. Tenho a convicção firme de que, se tivesse vivido no final do Neolítico, teria dito: "Pcht, oub'lá ó Martins [nome comum da cultura de Maikop], por que não transportas tu essa caçada de javalis em cima do meu carro de rolamentos de pedra lascadinha. Assim não dás cabo das cruzes e podes voltar a ser bípede. Lá está, é da maneira que deixas de te queixar das sodomizações [prática comum da cultura de Maikop]."
  • Mudar o nome de Marxismo para Javalinismo: 
Como continuo sem perceber o porquê de umas pessoas nascerem antes das outras, sem pedirem autorização aos vindouros para poderem inventar coisas e cenas que esses poderão querer inventar, digo que pensei no Marxismo antes de Marx.
No Javalinismo, queria eu dizer.
O barbudo de Trier pensou nos pobrezinhos quando contava quase com 30 anos, enquanto eu pensei neles quando tinha 14. Bem, não em todos os pobrezinhos, que são muitos, mas como tinha que começar por algum lado, pensei em iniciar comigo.
Como qualquer grande quadro ideológico, este também nasceu da necessidade (e do 'bué da' tempo livre):
Todos os fins de tarde sentava-se em frente à TV a ver o Marés Vivas e questionava-me (depois de uma sessão de auto-satisfação, obviamente):
"Como é que um gajo pode deglutir uma gaja como a Erika Eleniak?"
 E nada!
Os dias passavam e rien.
Aconteceu até ir correr para a praia com um meco de sinalização ao pescoço (que era o mais próximo que existia das bóias de salvação do programa televisivo) para ver se chovia alguma coisa.
Quando folheava a Super Pop de Julho de 1993, deparei-me com a realidade: a Erika namorava! E não era um namorado qualquer: era rico!
Foi aí que desenvolvi aquilo a que as pessoas chamam (erradamente) de Marxismo. Não desenvolvi imediatamente, pois a Super Pop daquele mês trazia um poster central da Erika e fiz um intervalo no WC mais próximo.
Bem, havia uma solução óbvia: tornar-me rico. Mas como era um gajo cool não queria correr o risco de me poder tornar num filho da puta.
Ora, se só os ricos (esses opressores) tinham acesso a gajas boas, tínhamos que mudar de paradigma: os pobrezinhos também deviam ter direito a comer gajas boas.
A ideia era muito simples: abolir a posse de Erika's (propriedade privada) em favor da colectivização das mesmas.
Como o Marxismo, também o Javalinismo tem muitos adeptos teóricos e muito poucos praticantes.
A culpa também é minha, que não me exprimo muito bem, sobretudo desde o dia em que propus ao Tomás, o meu amigo do râguebi, para partilhar a Celeste com os amigos.
É muito difícil discursar sem incisivos e caninos, e quando as palavras parecem todas compostas por éfes.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

O escritor que se esqueceu de escrever VII

(continuação da continuação da continuação da continuação da continuação da continuação - parte 6 aqui)

  • Versos em Reverberação (2032), poesia interactiva
A decadência literária de Bruno é atestada pela segunda e última publicação na sua nova editora, uma vez que é despedido logo após a publicação deste livro. Se este livro tivesse saído no auge literário de Bruno poderíamos falar duma espécie de renascimento do surrealismo; como estávamos nos apeadeiros finais, observou-se uma forma de patologia psiquiátrica. O que o autor nos oferece é uma série de ecos, propondo ao leitor a adivinha da rima. Observe-se os seguintes exemplos:
...ração...ação...ção...ão...ãããooo _______________________________________
...abrão...brão...rão...ão...ããããoo  _______________________________________
...oder...der...der...er...eeeerrrrrr  _______________________________________
...uta...uta...uta...ta...ta...aaaaaaa _______________________________________
...avali...vali...vali...ali...liiiiiiiiiii  _______________________________________
...aneleiro...neleiro...leiro...eiiiiro _______________________________________
Chegava ao fim a produção literária de Bruno, sob a sua pena, sem glória.
Os louros viriam depois, em duas tranches: primeiro, com o seu livro de maior sucesso (que não era seu) e, segundo, com o maior prémio literário que um escritor pode almejar.
  • Vim das Gónadas do Meu Tio (2038), autobiografia não autorizada
Caído no olvido, Bruno deambula pelas ruas, onde passa a dormir. No Inverno de 2037, Nélson Baltasar reencontra Bruno no parque municipal, sem o reconhecer imediatamente. Reatam a amizade e Nélson alberga-o em sua casa, que tinha pouco espaço, onde passa a dormir com 26 chinchilas.
Desta vez, quem puxa o tema da literatura é Bruno e revela que nunca conseguiu parar de escrever. O único tema que lhe interessava era ele próprio. Nada externo a si o movia na escrita. E era a escrita que o mantinha vivo, quer no sentido, quer biologicamente. Bruno passou a escrever em folhas de árvores: mantinha o que queria recordar em folhas perenes; e alimentava-se de folhas caducas onde também escrevia, mas apenas o que queria comer - 'rolo de carne', 'tofu de doninha', 'gin de maracujá'.
Nélson pediu-lhe autorização para catalogar as folhas e tentar fazer delas um livro. Ficou espantado quando verificou que o que tinha em mãos tinha substrato e não era da resina; tinha substrato literário. Era o livro mais sincero e visceral de Bruno; e era a sua autobiografia.
A ideia de publicar não fazia parte do horizonte de Bruno; queria apenas escrever. E queria deixar de o fazer em folhas arrancadas e em folhas caídas. O seu objectivo era simples: escolher uma árvore e escrever a sua história nas suas folhas. E quem quisesse ler, teria que trepar uma árvore. Não mais haveria edições em papel, nem apresentações, nem entrevistas, nem nada. Apenas a sua história: espalhada nas folhas da árvore: perecível ao sabor do tempo.
Mas Nélson queria ajudar financeiramente Bruno. O facto de Bruno lhe andar a gratinar chinchilas também pesou. A única forma de o ajudar, uma vez que Nélson era parco em bens, era publicar a autobiografia de Bruno.
Assim aconteceu. E foi efectivamente o livro mais sincero e vísceral de Bruno.
Uma autobiografia que começa com as palavras de engate do pai para a mãe do autor, seguida da descrição pormenorizada da sua concepção. Ficamos a conhecer o gérmen da produção literária de Bruno, mas a novidade, o choque, adveio das relações entre os seus familiares.
Afinal quem Bruno conhecia como pai era somente seu tio-avô, enquanto o seu tio era o seu pai biológico; já a sua mãe era efectivamente sua mãe, mas acumulava com o grau de avó paterna; o seu primo mais velho era, na realidade, o seu filho mais novo; manteve uma relação extra-conjugal, ele que foi sempre solteiro, com a cadeira de baloiço que vivia em união de facto com o seu primo Samuel; a cadeira de rodinhas que se pensava ser fruto desse relacionamento mais não era do que filha de Bruno, revelação inédita.
A família padecia de Parentalatatite (badalhoquissis nojentis em latim), uma patologia que permite reconhecer familiares pelo cheiro, mas torna graus indescerníveis.
O livro conheceu enorme sucesso, tendo chegado à 72ª edição (sendo que as primeiras 60 foram de 3 exemplares cada uma) só em território nacional.
No decorrer deste sucesso Bruno esteve incontactável e invislumbrável. Consta-se que, com o dinheiro da autobiografia, Bruno terá comprado uma oficina de carpintaria onde passou a viver e juntamente com cerca de duas centenas de cadeiras abandonadas (com pernas a menos; mancas; cruzamentos de venguê com carvalho mal conseguido; etc.)
Bruno só voltou a ser visto uma única vez.
Seria última: para nós e para ele.

(continua para terminar, se o escritor não se esquecer de escrever)

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Anatomia da Politeia

A política não se aprende em Ciência Política.
Tudo o que precisamos de aprender acerca do nosso sistema democrático aprendemos em Ciências da Natureza, no 5º ano. Mais especificamente, quando tratamos do tema: aparelho digestivo.
Senão veja-se:

      1. Trato gastrointestinal superior
  • A política começa na boca - eleições implicam eloquência, retórica, promessas: os víveres políticos.
  • Umas vez findadas as eleições, os vencedores, juntamente com os seus víveres políticos, afastam-se da realidade exterior para se imiscuirem numa realidade interior (faringe), onde antes transformam os víveres num bolo alimentar homogéneo, numa massa que não permite distinguir promessas originais, que é necessário para entrar no corredor do poder (esófago).
  • Chegados ao gabinete do poder (estômago), são instados a tomar uma decisão por quem os patrocinou (secreção gástrica), de modo a saberem que rumo vão tomar. 
      2. Trato gastrointestinal inferior
  • No gabinete do poder (estômago), o bolo alimentar já não é o que era antes de entrar na boca e é apenas aquilo que a secreção gástrica deixa ser.
  • Dois caminhos se colocam: tomar a decisão correcta, mas ter que deambular pelas infindáveis curvas do intestino delgado; ir pelo caminho mais fácil de salvação individual e percorrer o trilho rápido da luz ao fundo do túnel (intestino grosso).

MORAL DA HISTÓRIA: Não existe, fala-se de política
AMORAL DA HISTÓRIA: Isto vai dar merda 

Já não temos que esperar
neste governo insolente
mais que perecer a gente
sem o bem nunca alcançar;
só para Deus apelar
pode o povo português
e pedir-lhe desta vez
que nos dê governo novo,
para que com ele o povo
siga no seu natural.
Este é o bom governo de Portugal.
Gregório de Matos, 1713

Transcendência e Repartições de Finanças

Há quem comungue em igrejas, o Javali comunga em repartições das Finanças.
Trata-se de uma prática recente. Desde o último 13 de Maio, para ser mais específico, também conhecido como o dia em que o Javali viu a luz.
Na verdade, foi coincidência pois a prática recente de 'dijei-ing' fazia com que o Javali visse poucas vezes a luz do dia.
No dia em questão, o Javali foi convocado pela Autoridade Tributária e Aduaneira para se apresentar na repartição de finanças da sua área de residência, de modo a explicar divergências no seu IRS.
E o que parecia um dia normal das finanças: espera, espera, espera, "Ai, esse problema não se resolve aqui, meu senhor! Tem que subir até ao 3º andar, virar duas vezes à direita, quatro à esquerda, caminhar até ao fundo do corredor, descer as escadas até este andar e dirigir-se ao guichê aqui ao lado. Como não percebeu? Pffff!" Espera, espera, espera. "Não, não! Como é óbvio não é aqui! Tem que fazer o percurso inverso e voltar a este guichê, iniciando a conversa com as palavras certas, de modo a eu entender." Mais espera, um copo de água com açúcar e sair de lá volvido um mês: depressa se tornou num dia especial.
Quando cruzou a porta de saída, o Javali reparou que os funcionários que o atenderam estavam no momento de pausa, a chupar SG Ventil's. E foi uma revelação: eles movimentavam-se como pessoas normais e não em câmara lenta, falavam e não grunhiam e, cúmulo dos espantos, sorriam!
O Javali inexplicavelmente estava inundado por uma felicidade pura.
Isto significava a presença de algo transcendente dentro de portas das Finanças. Algo que, de certa forma, sugava a vida dos funcionários e os transformava em mentecaptos com sintomas de idiotia. Eles só podiam estar ao serviço de algo maior.
Desde então, o Javali foge ao fisco, de modo a ser frequentemente convocado para o seu templo de espiritualidade.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Novas oportunidades

O Javali adere ao empreendedorismo, muito por causa do empreendedorismo utilizar sertãs antigas, em que fica tudo grudado ao fundo, e promove novos empregos que acabou de inventar:
  • Osculador de casais em transportes públicos - toda a gente conhece ou vivenciou aquele fenómeno em que jovens casais, alienados da existência de vida humana nos seus arredores, promovem limpeza oral na cavidade bucal dos seus parceiros. Isto acontece usualmente em transportes públicos de todos os géneros. O que se propõe é apenas alguém que lhes dê um banho de realidade, daí a criação do Osculador de casais em transportes públicos, figura que tem como competência intrometer-se entre os casais, sem nunca falar, lambendo à vez as bochechas das parelhas.
  • Bobo da Segurança Social - recuperar a figura do bobo medieval e utilizá-lo nos edifícios da Segurança Social, quer para animar as filas para atendimento, quer para reanimar os funcionários dos guichês.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Prémio de Fundo

Elogio público proferido em 4 de Julho de 2013, na suite tropical do motel Hours and Minutes, por Billy Foxxx, presidente da cadeia de filmes em DVD In & Out, a propósito da aposentação de Dick Hammer (John Mendoza, na vida real), com quem colaborou em mais de 250 filmes (só nos últimos dois meses):

« Boa noite a todos.
» É com um sentimento enorme, duplamente inverso, que começo esta intervenção.
» Aliás, enorme era a sua alcunha no plateau.
» Duplamente foi como entrou Hammer em todos os cenários dos filmes em que participou: como actor e como seu duplo.
» Convém, neste dia, exaltar as portas que Dick abriu; as fronteiras que derrubou; os preconceitos que extinguiu.
» Poderia ter sido somente mais um actor, no limiar da sombra da fama. E assim foi durante duas semanas, com uma participação insípida em apenas 78 filmes. Tudo muda com o papel principal em Espeta-Cu(no)Lar, o filme que alarga ainda mais o mercado do nosso cinema.
» No papel de Jack, o ajudante de cozinha que coloca a comida nos tabuleiros do lar Belly Tits, começa a dar vida a pessoas que pensavam que aquela iria ser a sua última morada, animando as horas de refeição com equilíbrio de tabuleiros sem mãos sobra a sua p...
» Desculpe? Ah, é para terminar? Já termino! Já termino!
» Basicamente, aquilo era uma espécie de Cocoon mas em que os velhotes ganhavam vida pela proeminência de Jack.
» O que isto significa é que, depois deste filme, tivémos um boom de visitas no nosso site por uma faixa etária que até então nem sequer sabia utilizar um PC.
» Antes de terminar, ergamos a taça de champanhe como Jack equilibrava tabuleiros, e brindemos a Dick, que se aguentou de pé até ao fim.
» Para terminar, convido-vos a assistir a um espectáculo de pirocotecnia pela companhia "Espadas d'Aço".
» Obrigado.