quarta-feira, 22 de abril de 2015

Sonho e pesadelo

Tive um sonho que virou pesadelo.
Sonhei com uma história extraordinária que podia dar um grande livro. Um homem escreve um livro sobre a história da conquista de Lisboa aos mouros, enquanto faz ele próprio parte do contingente de D. Afonso Henriques.
Acordei e pesquisei sobre o assunto. Afinal já existe. O Saramago já escreveu um livro assim. E isto deixa-me indignado. Por que razão as pessoas que nasceram antes de nós têm direito a ter os louros de invenções que um gajo podia perfeitamente ter?
Eu sinto que era menino para inventar o marxismo. "Ai, há meia dúzia de mamões que dominam o sistema capitalista. Era é dar-lhe nas trombas e coletivizar as cenas para o povo, pá!" Cá está, socialismo de transporte público.
Mesmo a roda, era uma invenção ao meu alcance. Os gajos do Neolítico que se vão lixar, que eu fazia aquilo sem grande alarido. Nunca lhe dava o slogan da "maior invenção da Humanidade".
Assim, não há igualdade de oportunidades temporais. Os gajos de antigamente deviam ter pensado nisso. Podia haver gajos, como eu, que poderiam querer inventar as mesmas coisas que eles e só não o fizeram porque ainda não tinham nascido. Não é justo!
Pelo sim, pelo não, eu não faço nada. E só não o faço porque tenho respeito pelas gerações vindouras. Eu quero que os meus bisnetos me agradeçam o facto de eu não ter mexido uma palha em relação ao aquecimento global. Assim, eles podem fazer alguma coisa em relação a isso. Ou não! Podem, também eles, pensar no futuro. E deixar para outras gerações vindouras.
Agora pensem nisso.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Agenor, o escritor de viagens


Isto é demasiado bom para não ser partilhado.
Trata-se da história de Agenor Correia, o primeiro escritor de viagens português após o 25 de Abril.
Agenor, jornalista do Diário de Notícias por profissão e viajante por vocação, é-lhe encomendado um trabalho por uma empresa em expansão no mercado de guias de viagem: a American Express. O trabalho: Peru.
A seguir à revolução, muitos portugueses voltaram a estudar. Sobretudo, línguas estrangeiras. Agenor andava a aprender os rudimentos do inglês. Quando lhe ligaram da American Express, foi um senhor inglês que lhe fez a encomenda e logo se instaurou uma dúvida em Agenor:
- Será que ele disse Peru num esforço para comunicar em português, ou quereria ter dito Turkey que é, ao mesmo tempo, Peru e Turquia?
Sem querer ligar de volta para sanar a dúvida, Agenor optou por estudar tudo o que sabia acerca da Turquia. Entretanto, chegou um bilhete de avião com destino a Lima. Agenor não podia acreditar. Consta-se que teve um ataque de ansiedade, ao qual juntou dois almudes de bagaço.
Mas não desistiu. Viajou para o Peru acompanhado do fotógrafo António Araújo. No entanto, depois de aterrar não conseguia deixar de pensar na Turquia. E o que aconteceu foi insólito. Em Lima, escreveu sobre Istambul; em Arequipa, relatou a cores ocres das ruas de Diyarbakir; e em Machu Pichu, noticiou a questão curda nos confins da Capadócia. No fundo, mesclou a identidade poliglota nas palavras Peru e Turkey.
Mesmo assim, o livro foi publicado. Quem tiver a primeira edição do guia American Express do Peru, encontra as fotos das diversas regiões mas apenas textos sobre a Turquia. O tradutor inglês sofreu um colapso nervoso e apenas debitava um dilema shakespeariano: "Peru or Turkey, that is the question."
Isto causou um grande escândalo no Peru, ao ponto de Agenor ser ainda hoje considerado "persona non grata" no país.
Agenor já não se encontra entre nós. Consta-se que morreu de cirrose e na sua lápide encontramos um escrito bilingue:
"Aqui jaz Agenor, até ao fim bêbedo que nem um peru.
Here lies Agenor, drunk until the end like a turkey."

terça-feira, 7 de abril de 2015

Dramaturgia contemporânea: O apelo aos sentidos


Sabiam que estreou um novo programa cultural no canal 2 chamado "O ninho dos nichos". Vá lá, digam que sim, porque fica sempre bem dizer que "eu nem vejo televisão mas, quando o faço, é só para ver o canal 2."

No primeiro programa, o apresentador Marco Machado Chaves iniciou de tal forma esta série, que só transcrito lá vai. Depois das apresentações, disse isto:
"Hoje damos a conhecer a peça de teatro de Jorge Moreira, O apelo aos sentidos. Trata-se de uma obra que leva o nicho ao extremo, numa altura em que os nichos se tornaram mainstream. Não o nicho em si, mas o próprio conceito de nicho. O nicho individual não é mainstream, permitam-me reforçar, mas o seu conjunto ultrapassa já o mainstream em si."

Ainda estão aí? Deixem-me dizer que ele disse isto quase a espumar e a sua brilhante careca alterou de cor, pelo menos, 15 vezes. De seguida, descreveu a peça:

"A peça começa com um estrondo, um barulho que estremece toda a sala. Sobe o pano e vemos duas pessoas separadas por uma parede. São ambas surdas, mas discutem através de linguagem gestual através da parede, sem verem os insultos um do outro. Na plateia, o público acompanha as falas através de um pequeno livro escrito em braille, o qual não está habilitado para ler. A primeira fila está ocupada por um grupo de cegos que se riem a bandeiras despregadas, porque são os únicos que percebem a peça. Porém, não a vêem, o que significa que podiam estar a ler em casa."

Como não percebi, ri-me, para passar por entendido em arte.

quinta-feira, 26 de março de 2015

A Última Papa

Morreu Luís Miguel Rocha. Depois de Herberto Helder, outro autor português morre na mesma semana.

Colocar Luís Miguel Rocha e Herberto Helder na mesma frase só é possível perante 3 cenários: lançaram um livro na mesma semana; estão no catálogo da mesma editora; faleceram em datas próximas. Infelizmente, foi a última e só possível devido à maior das crueldades da humanidade: a doença.

Tive oportunidade, enquanto livreiro, de conversar, ainda que fortuitamente, com o autor. Simpático, acessível e sempre de bom humor.

Enquanto escritor, não é do meu agrado. Como costumava dizer, joga na segunda divisão de José Rodrigues dos Santos e de Dan Brown. Porém, os três jogam também um desporto diferente de Herberto Helder. O poeta joga a 10 no Barcelona de Guardiola, enquanto os 3 jogam a suplentes na selecção nacional de boccia. Sim, é verdade que dá mais prémios a Portugal, mas não é por isso que vou perder o meu tempo a ver.

Dito isto, gostaria de dedicar a Luís Miguel Rocha um remake do seu livro, como é apanágio deste que se assina. 

(Coloquem uma voz de trailer de cinema)
Conheçam "A Última Papa", um thriller que revela o plano secreto desse grupo restrito de pessoas - OS PAIS - e que têm um propósito escondido para os seus filhos. 
Zezinho, um bebé que está prestes a fazer 4 meses, vai ver o seu mundo desabar, quando Marlene e Toni, seus pais, lhe apresentam... A Ultima Papa! Depois disso, Zezinho terá que começar a comer, pasmem-se, sopa
- Uááááááá!!!! - grita o Zezinho.
Couves!
- Uéééé! - varia o choro o Zezinho.
E fruta esmigalhada!
- Gu gu dá dá! - fica agradado o Zezinho.
Mas não é papa!
- Uáááááá! - repete-se o Zezinho.
Venha conhecer "A Última Papa", o plano diabólico dos pais de alimentar os filhos com coisas que sabem menos bem que as papas.

Até breve, Luís.

Música para a história


Há músicas ou álbuns que beneficiaram de factos e tornaram-se na banda sonora de marcos históricos. O que seria da Guerra do Vietname sem o What's Goin'On de Marvin Gaye ou o 11 de Setembro sem o Rising de Bruce Springsteen? Os melómanos agradecem: a música e os eventos. Mas o contrário também é verdade. Há factos históricos que se arrependeriam, se soubessem as músicas que foram feitas em sua honra. Ora vejamos:

#1 - Amor de Água Fresca de Dina

Esta foi a música que me afastou da salada de fruta. Até à música vencedora do Festival da Canção de 1992, eu via a fruta como fonte de vitaminas e de imposição saudável por parte dos adultos. Ora, ainda não tinha visto o filme Nove Semanas e Meia e quando ouvi a Dina cantar

"Foi na manhã acesa em ti, abacate, abrunho.
 E a pêra francesa, romã, framboesa, kiwi
 Peguei, trinquei e meti-te na cesta, ris e dás-me a volta à cabeça
 Vem cá tenho sede, quero o teu amor d'água fresca"

Operou-se uma mudança em mim. Aquela fruta tinha uma conotação sexual, quando devia ser só digestiva. E o pior é que vinha de uma senhora que parecia um senhor, o que me deixava ora excitado, ora extremamente confuso. E vim a saber que isto não aconteceu só comigo. Tenho para mim que o senhor que inventou a salada de fruta devia estar a dar voltas no seu túmulo, o senhor Fruit Saladens.

#2 - I Will Always Love You de Whitney Houston

A música que marca o filme O Guarda-Costas (Bodyguard, para os cagões), foi também o início dos abusos de estupefacientes por parte de Whitney Houston. Ora, acontece que Whitney contracena neste filme com Kevin Costner e, como se trata da sua primeira experiência de actuação, decidiu conhecer o trabalho do actor. Escolheu Danças com Lobos, a versão do realizador. Antes do primeiro diálogo, já Whitney tinha esgotado o stock dos armazéns de Bogotá, só para combater o tédio. A única forma que arranjou para se vingar de Costner foi compor a música do filme, que tem uma mensagem de dor associada:

"And I (e Ai!) Will Always Love You (Uhhhhh uh uh)"

Cá está: "Ai" de dor e "Uhhh" alusivo aos lobos.

#3 - Do They Know It's Christmas de Bob Geldof

Não há muito a dizer sobre esta música, apenas que é repetida até à exaustão em todos os Natais. Bob Geldof escreveu-a depois de ver uma reportagem sobre a fome na Etiópia. O que eu vi foi o Bono igualzinho ao Zed da Academia de Polícia. Aposto que os colonizadores teriam feito África de forma diferente, se fosse para  não ouvir a música em todos os shoppings do mundo.

#4 - We Are The World de Michael Jackson e Lionel Ritchie

Uma música que começa com "We Are The World, We Are The Children" e é composta por Michael Jackson. Até o Bibi foi mais discreto. Ter o Lionel Ritchie aqui serve também para lembrar que a sua música Hello deve ter feito Alexander Graham Bell ter-se arrependido da invenção do telefone.

#5 - Candle in the wind de Elton John

Este é o single mais vendido de todo o sempre. É o tema cantado no funeral de Diana que não é um original. Elton John já o havia composto para Marilyn Monroe, uma senhora que viveu à sombra de uma aparência e... afinal, era só isto. No fundo, Elton requentou uma música. Eu sei que devia ter começado este argumento com "Elton John tocou uma balada num funeral" e bastava, porque toda a gente compreendia o grau de catástrofe. No fundo, se Diana Spencer soubesse de Candle In The Wind nunca teria entrado no tunel e até tinha ceado com os paparazis.

terça-feira, 24 de março de 2015

Herberto

Morreu Herberto Helder, um dos grandes da poesia portuguesa.
Falamos de um autor que conhecemos pelo que escreveu e nunca pelo que disse. O que é de louvar, num meio literário cada vez mais dotado de espetáculo e menos de literatura.
Convém não esquecer que foi um autor que nunca pensou nos seus leitores. Isto é, ao exigir às editoras edições únicas das suas obras, isto fez que estas voassem das livrarias sem chegar às mãos de quem gosta de ler as suas palavras. Isto tem tanto de verdade como de mentira. Porque os seus leitores existem. Mas existem depois de comprar os seus livros ao triplo do preço, em mercados de segunda mão.
Dito isto, fico duplamente triste. Triste pelo vazio da sua partida e também pelo marketing que se estava a gerar em torno da sua próxima obra. Pelos vistos, o novo livro não seria de edição limitada. Porém, assim que o leitor terminasse o livro, este autodestruir-se-ia como as mensagens da série "Missão Impossível".
O funeral realiza-se amanhã e tem um número limitado de pessoas que podem prestar a sua homenagem. O corpo encontra-se, a partir desta tarde, em câmara ardente durante 8 segundos e, após os quais, segue-se uma sessão de leitura de poemas de Manuel António Pina, só porque não se encontraram livros do próprio Herberto nas livrarias do país.
Deixo-vos com uma foto de um fã, publicada aqui há uns meses, porque um javali também tem sensibilidade, caralho!
Até sempre, Herberto!


terça-feira, 17 de março de 2015

Jardins: a vergonha de Portugal


A prestigiada editora Phaidon editou um livro sobre jardins e escolheu 5 exemplos portugueses para figurar dentre os 250 melhores do mundo. Algo que, aparentemente, nos devia encher de orgulho, é mais uma afronta para o nosso país.

Ora, vejamos.

Existem 193 países no mundo o que, para 250 jardins, daria equitativamente 1.29 jardins por país. Porém, se retirarmos os países de África (55) que, como é óbvio, não possuem jardins, passamos a contar com 138 países. Retirar África obedece a uma questão lógica, nada racista. Os jardins são um luxo. Um continente não pode investir num arquitecto paisagista quando não tem dinheiro para arroz!

Vamos retirar desta equação os países com invernos rigorosos, um clima que não permite a manutenção de belos jardins: a Rússia, os países bálticos, a Mongólia, o Nepal, o Canadá, a Islândia, a Europa de Leste, outros que não me lembro agora e os países escandinavos, com excepção da Suécia. A Suécia também é para retirar, mas não pelo clima - é que eles usam a madeira dos jardins para peças do IKEA. Sobra-nos cerca de 100 países.

A América do Sul sai toda também. O que eles têm para lá é aquela beleza natural das Amazónias e Patagónias sem qualquer intervenção do homem - um nojo! Menos 12. Estão a acompanhar a matemática da coisa? Espero que não, ou são maus portugueses.

Os Estados Unidos saltam fora. O maior monumento que eles lá têm é um buraco no meio do deserto e estão a cagar-se para o meio ambiente. Atenção, nós também temos um grande buraco e não estou a falar das contas do BES. A Érica Fontes faz frente ao Grand Canyon e já muitas pessoas se perderem na sua imensidão.

A Austrália também não faz parte. Os jardins são feitos para uma pessoa apreciar a natureza e para poder passar um dia descansado. Um país que, no ranking de animais perigosos, ocupa os primeiros 100 lugares no top 10, não faz jardins. Está um gajo a ler o último do Dan Brown no banco do jardim, totalmente absorvido pela trama e, de repente, é comido por um crocodilo. Enquanto não conseguirem domesticar crocodilos e fazê-los comer pessoas só após estas terminarem o último capítulo, não vão a lado nenhum na construção de jardins.

Da Nova Zelândia nem vale a pena falar. Um país que tem paisagens lindíssimas mas, depois de ver O Senhor dos Anéis, tenho para mim que aquilo é tudo criado em computador.

O resto da Ásia também não conta. Índia nem saneamento básico tem; Indonésia, Vietname, Tailândia e arredores, só se tiverem jardins aquáticos, tal a quantidade de tsunamis; e o Japão, depois de Fukushima e com a actividade sísmica do país, deve ter jardins esbeltos, de acordo com os padrões extra-terrestres.

O que é que sobra? Portugal, Espanha, França, Holanda, Reino Unido e Malta.
Espanha tem espanhóis, o que desclassifica logo à cabeça. O ruído é insuportável.
França tem pessoas a falar francês e passear por Versalhes é giro e tudo mais, mas ouvir constantemente "Oh la la!" é como namorar com a Scarlett Johanesson e ela ter a voz da Heloísa Apolónia. É bom de ver mas irrita constantemente.
O Reino Unido tem bons jardins mas não tem sol, o que significa que os jardins são pensados ou para sem-abrigo, ou bêbedos, ou pedófilos.
Quanto aos jardins da Holanda, nada a apontar. São maravilhosos: tulipas, arco-íris e unicórnios. Uma vez, vi um jardim holandês na minha sala. E flutuava. E cantava músicas dos Abba em suaíli.

No que diz respeito a Malta, não tenho nada a apontar, até porque não sei nada sobre Malta. E só sei que é um país por causa dos jogos sem fronteiras.

O que é que isto significa? Que os 250 melhores jardins do mundo deviam ser distribuídos entre Portugal e Malta. 125 para cada um. E quantos é que foram reconhecidos? 5! É um escândalo! Nós temos os melhores jardins do mundo, excluindo um ex-administrador do BCP e um outro, que é a rainha do carnaval do Funchal. É pedir ajuda à NATO para declarar guerra a Malta, com os seus 245 melhores jardins do mundo. Palhaços maltenses... ou maltiços... ou malteses!