terça-feira, 28 de maio de 2013

O Inventor de Fobias

Entretanto, no gabinete de invenção de fobias, está a trabalhar José Villaverde. Objectivo diário: dez novas fobias.

  • Anabelofobia - Pessoas que ganham deslocação da retina sempre que falam com pessoas de nome 'Anabela'.
  • Canalofobia - Pessoas que rejeitam a mãe logo após a descida pelo canal vaginal. Posologia: voltar a colocar o recém-nascido dentro da mãe pela mesma via e optar pela cesariana.
  • Sinistrofobia - Pessoas que se suicidam após aperceberem-se que coçaram partes do lado esquerdo do corpo com a mão direita (NOTA MENTAL: para criar clima ameno,mencionar na reunião semanal de apresentação de ideias a notícia do jornal JN, de 2 de Março de 2012. Diz naquele jornal que os membros da tribo Ahorangi, que mutilam a mão esquerda quando o ciclo lunar completa 33 voltas, estão em vias de extinção após a queda num precipício de quase todos os membros do sexo masculino. Segundo fontes locais, a tribo estava em plena semana de festividades, em honra do deus Sassi, quando, na dança vespertina, em pé coxinho (esquerdo; a dança matutina decorre sobre o direito; o caminhar sobre um pé é obrigatório e punível com a morte o seu incumprimento), passaram sobre um campo de urtigas, tentando em pequenos saltos coçar intermitentemente o pé esquerdo com a mão disponível (direita). No desespero, não terão visto o precipício, acabando por falecer no fundo do abismo. As testemunhas oculares mencionam que a comichão devia ser de tal modo intensa que mesmo em queda livre os Ahorangi não pararam de se coçar até embater no solo. MORAL: a história não tem a ver com a fobia, mas a descrição da fobia tem piada em conjunto com a notícia. NOTA MENTAL Nº 2: terminar com ar sério e cincunspecto por causa do Joi, o estagiário que veio de Jaipur e parece ser índio ou indiano ou lá o que é. RESUMO: primeiro a piada, segundo a fobia, terceiro solidariedade étnica).
  • Valterofobia - Pessoas com aversão a pessoas de nome 'Valter'.
17h00: hora de saída.
José Villaverde levanta-se depois de ter entrado em delirium tremens após a quarta fobia, benze-se oito vezes e meia, agacha-se e rasteja até casa, com medo de ser apanhado pelo dióxido de carbono que flutua meio metro acima da linha do mar.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

O Inventor de Fetiches

Entretanto, no gabinete de invenção de fetiches, está a trabalhar Juan Villaverde. Objectivo diário: dez novos fetiches.
  • Antonófilia - Pessoas que discordam com qualquer concordância, mesmo que concordem. Não confundir com hipsterafilia.
  • Banzaifilia (Única forma de afectar psicologicamente a mulher enquanto cônjuge) - Homem que destrói mobiliário e decoração em geral escolhidos pela mulher, gritando a palavra 'Banzai'.
  • Calçadofilia - Pessoas que não conseguem viver sem a calçada portuguesa. Não confundir com sem-abrigo. (a melhorar)
  • Duo-slipofilia - Pessoas que mudam de slips de duas em duas horas. Em alguns países, como a Eritreia ou a Micronésia, acontece o mesmo (as pessoas mudam de slips) mas sempre que se deparam com a palavra 'duodeno'.
  • Elderofilia - Pessoas que se excitam com leituras do Novo Testamento com sotaque do Utah.
  • Franquismo - Pessoas que se excitam com os valores das franquias dos seguros de vida.
  • Mupismo - Pessoas que peregrinam de mupi em mupi em busca de satisfação publicitária.
  • Plissadismo - Pessoas que excitam com tudo o que seja plissado, com ênfase para o material capilar.
  • Retardadismo Espirituoso - Pessoas que se riem por contágio de pessoas que efectivamente percebem as piadas. Não confundir com atrasadismo.
  • SGVentilofilia - Pessoas que trocam a família por uma ida ao quiosque, seja para comprar tabaco, seja para ler as gordas dos jornais desportivos. (especificar mais)
17h00: hora de saída.
Juan Villaverde levanta-se, faz amor com o alarme de incêndio e dirige-se para casa.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

STATU-CIVITAFILIA - parte 2

(continua e termina aqui)

3. DIVORCIADO:
Conheci na prisão esta nova vida de divorciado, não em estado puro mas, pelo que me disseram, num estado alternativo, não reconhecido pelo Código Civil.
Quando pensei que poderia voltar aos "Gloriosos Tempos do Masturbador Compulsivo", vi-me no meio dum relacionamento não consentido, com três pessoas ao mesmo tempo.
Alex, Romualdo e Facadas faziam parte da Supremacia Branca. Quando me abordaram no chuveiro, disseram que a partir daquele momento eu pertencia-lhes. Após o primeiro encontro, que me permitiu aprender a dormir de pé, voltaram a procurar-me regularmente.
- Em que estado do Código Civil é que se encaixa este relacionamento?
- Ó meu querido, podemos chamar-lhe Código Civil, se quiseres. Agora se não encaixar, nós fazemos por isso.
Foi assim que aceitei. Eles deviam ser activistas e estariam a tentar legalizar este novo estado. Agradava-me esta ideia de tubo de ensaio.
Durante nove anos de experiência, fui a puta deles.

4. CASADO (POR INTERESSE)
Quando terminou o encarceramento, não havia tempo a perder: queria casar, agora por interesse.
Naturalmente, tinha interesse em encontrar uma mulher que me permitisse ser viúvo.
Foi então que comecei a passar os dias à porta do IPO.
Não foi difícil encontrar noiva.
Escolher mulheres no IPO obedece a uma lógica inversa à escolha de fruta: quanto mais verde, melhor.
Ângela era perfeita: cancro do colo do útero em estágio III.
Como sabemos, os casamentos, mesmo que pareçam perfeitos, não são mares de rosas.
A Ângela escondeu de mim o facto de ser alérgica a várias coisas, como a quimioterapia, por exemplo, que a fazia vomitar constantemente. Também não me permitiu ter um cãozito, mas limpei pêlo do chão até mais não. Parecia que vivia lá em casa um caniche nazi, fetichista da máquina zero.
Numa noite, quando estava a dirigir-se para a casa de banho, tentei ajudá-la. Debruçou-se sobre a sanita para vomitar e eu segurei a testa para lhe alijar o esforço. A minha mão escorregou. Ainda tentei agarrá-la pelo cabelo, mas a sua ausência fez com que embatesse estrondosamente com a testa no sanitário.
Acabou por falecer, não do cancro, mas da conjugação daquilo que nos separava: alergia à quimioterapia e calvície.

5. VIÚVO
Se custou muito. É isso que me costumam perguntar: custou muito?
Um funeral não é propriamente barato, mas a perda de peso da Ângela permitiu que fosse enterrada num caixão de criança.
Nesse momento, apercebi-me pela primeira vez que os sentimentos podem ter sabores. E sabores concomitantemente díspares. O doce e o amargo acompanhavam a frase que latejava no meu pensamento: completei o ciclo.

Com o statu-civitafilia terminado, dei início ao período de recordações.
Fiquei estático. Entrevi que não havia usufruído devidamente de cada estado civil.
Vivi os estados civis sempre com olhos no futuro, sempre focado no próximo.
Com uma excepção: os tempos como divorciado.
Será que foi o único de que usufruí por ser precisamente o único que me permitiu a felicidade?
Na verdade, mantive correspondência com o Romualdo e visitas conjugais com o Facadas.
Será que devo voltar para eles?
Olha, vai ali a mãe da Rosana!

FIM

sábado, 18 de maio de 2013

O Coleccionador de Peças Únicas - 3

(continuação - parte 2 aqui)

Deste modo, vai desenvencilhando-se do seguinte:

1989.Janeiro:
  • Artigo: Orelha esquerda
  • Vendedor: N/A
  • Preço: N/A
1989.Fevereiro:

  • Artigo: Olho direito
  • Vendedor: N/A
  • Preço: N/A
1989.Março:

  • Artigo: Narina direita
  • Vendedor: N/A
  • Preço: N/A
1989.Abril:

  • Artigo: Pulmão direito
  • Vendedor: N/A
  • Preço: N/A
1989.Maio:

  • Artigo: Rim esquerdo
  • Vendedor: N/A
  • Preço: N/A
1989.Junho:

  • Artigo: Braço esquerdo
  • Vendedor: N/A
  • Preço: N/A
1989.Julho:

  • Artigo: Gónada esquerda
  • Vendedor: N/A
  • Preço: N/A
1989.Agosto:

  • Artigo: Perna direita
  • Vendedor: N/A
  • Preço: N/A
Em Setembro, James Enkhtuyaa pica-se num parafuso enferrujado, peça adquirida em 1982 e que havia pertencido ao papagaio de Benjamin Franklin.
Ao ser-lhe recusado tratamento único, James decide não ser tratado de todo.
O pé e a perna começam a gangrenar.

Após a amputação, James Enkhtuyaa suicida-se com a capsula de cianeto que Speer não teve coragem de tomar. 
James Enkhtuyaa não conseguia ultrapassar a ideia de ter dois cotos iguais.

FIM

sexta-feira, 17 de maio de 2013

O Coleccionador de Peças Únicas - 2

(continuação - parte 1 aqui)

Lista de aquisições mais relevantes:

1963:
  • Artigo: Ancinho com defeito (único no lote de 3000 produzidos).
  • Vendedor: Tio Oscar Batukhan
  • Preço: Vistoria no banho por Oscar Batukhan
1967:
  • Artigo: Tela de recepção do quadro El Aficionado (1912) de Pablo Picasso, enviado por telégrafo de Málaga para Nancy. 
  • Vendedor: Sotheby's NYC
  • Preço: 550 000 USD
1974:
  • Artigo: Hímen de Jane Butterfly (alias de Kristýna Bohumila)
  • Vendedor: dobrý ženy v nadbytek domácí
  • Preço: Valor sentimental imediato e 3500 CZK no Mastercard no mês seguinte
1987:
  • Artigo: Fitas das primeiras gravações do Revolver dos The Beatles, cantado em gujarati por George Harrison
  • Vendedor: Christie's
  • Preço: 700 000 GBP
Em 1988 James Enkhtuyaa sente o vazio. Como é único, não se apoquenta.
No ano seguinte sente o mesmo vazio. Já não é único, urge mudar o rumo.
Na introspecção, James sente que não quer adquirir mais. Ganha, porém, o sentimento de querer livrar-se de coisas.
Não quer possuir coisas únicas: quer ser, ele próprio, coisa única.

Nova fórmula:
um mês = um desembaraço = uma peça = depósito do lixo

(continua só mais uma vez aqui)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O Coleccionador de Peças Únicas - 1

James Enkhtuyaa combatia o vazio com peças únicas.
O vazio enchia-se não de peças mas de sentimento.
A peça era o corolário.

Veja-se de forma intelectual:

Veja-se também de forma choninhas:


A fórmula que adoptou foi muito simples:
um ano = uma aquisição = uma peça = um espaço para expor

(continua aqui)

sexta-feira, 10 de maio de 2013

STATU-CIVITAFILIA - parte 1

Sempre me senti diferente.
Acontece que nasci como quase toda a gente: solteiro.
À medida que fui crescendo, vi que tinha que ganhar gostos, não só nos posts do Facebook, mas para a vida real: escola, trabalho e hobbies.
Havia também que eleger fetiches.
Experimentei: podolatria, mas era alérgico a queijo e aos laticínios em geral; frotteurismo, rapidamente abandonado pela aquisição de pé-de-atleta na glande; tricofilia, extinto em meados de 2005 com a massificação da cultura brazilian wax.
Na verdade ainda pensei experimentar outras parafilias, mas nunca as senti como minhas.
Tinha que criar o meu fetiche.
Foi então que me lembrei do STATU-CIVITAFILIA.
Isso mesmo: fetiche por estados civis.
Iniciei-me pelo estado que os meus pais me ofereceram à nascença, que eles também não tinham muitas posses.

1. SOLTEIRO, com dois momentos distintos:
a) solteiro narcisista: também conhecida por: "Os Gloriosos Tempos do Masturbador Compulsivo";
b) solteiro generoso: oferenda de inúmeras bebidas a outro sujeito solteiro, por norma gajas, possibilitando interacção sexual a dois ou a um, dependendo de graus de consciência.

Esta fase durou entre os 13 e os 19: estava desejoso de passar à fase seguinte. E correu tudo segundo os meus planos: queria casar duas vezes: uma por amor, outra por interesse.

2. CASADO (POR AMOR):
A Rosana era a mulher da minha vida: bonita, interessante, gostava das mesmas bandas, dos mesmos livros e tinha fetiche por homens unitesticulares: tínhamos tudo em comum.
Mas eu tinha um objectivo: divorciar-me.
Foi espectacular, nada fácil, mas espectacular.
A Rosana não estava nada à espera, até porque o nosso amor era do tamanho do mundo.
Eu disse: "Quero o divórcio." Ela disse que eu devia estar brincar, que nós brincávamos imenso, e virou-me costas.
Não sabia o que havia de fazer para que ela me levasse a sério. Foi então que optei por um acto em grande.
Aos domingos costumávamos almoçar em casa dos pais dela e, naquele dia de Páscoa, decidi chegar mais cedo. Quando a Rosana entrou, deparou-se com uma cena fabulosa: eu a esganar o pai enquanto lhe violava a mãe.
Ela lá me levou a sério e deu-me o divórcio, cumpria eu o primeiro dos dez anos de prisão.
Agradeci e disse-lhe que, lá por já não sermos marido e mulher, podíamos manter uma relação de amizade. Afinal, éramos ambos adultos.
A situação que me causou maior estranheza foi a dos pais da Rosana: nunca mais me dirigiram a palavra. E eu que costumava levar a velha ao mercado todos os Sábados.

(continua)